IV. O Processo da Enfermidade
Como toda terapia é psicoterapia, assim também toda enfermidade é doença mental. É um julgamento feito sobre o Filho de Deus, e o julgamento é uma atividade mental. O julgamento é uma decisão, tomada uma e outra vez, contra a criação e o seu Criador. É uma decisão de perceber o universo assim como tu o terias criado. É uma decisão segundo a qual a verdade pode mentir e não pode deixar de ser mentira. Nesse caso, o que pode ser a enfermidade senão uma expressão de pesar e de culpa? E quem poderia chorar exceto pela própria inocência?
Uma vez que o Filho de Deus é visto como um ser culpado, a enfermidade vem a ser inevitável. Foi pedida e será recebida. E todos aqueles que pedem uma enfermidade, agora condenaram a si mesmos a buscar remédios que não podem ajudar porque a sua fé foi colocada na enfermidade e não na salvação. Não há nada que uma mudança na mente não possa realizar, pois todas as coisas externas são apenas sombras de uma decisão já tomada. Muda a decisão, e assim como seria possível que a sua sombra ficasse sem ser mudada? A enfermidade só pode ser a sombra da culpa, grotesca e feia, já que é uma mímica da deformidade. Se uma deformidade é vista como algo real, como poderia ser a sua sombra senão deformada?
A descida ao inferno acontece passo a passo em um curso inevitável uma vez que a decisão de que a culpa é real foi tomada. A doença, a morte e a miséria agora assombram a terra e ondas incessantes, algumas vezes juntas e algumas vezes em inflexível sucessão. Contudo, todas essas coisas, por mais reais que pareçam, são apenas ilusões. Quem poderia depositar nelas sua fé, uma vez que isso é compreendido? E quem poderia não depositar a sua fé em todas elas até que compreenda isso? A cura é terapia ou correção, e nós já dissemos, e vamos repetir, que toda terapia é psicoterapia. Curar o doente é, apenas, trazer a ele a consciência disso.
A palavra ‘cura’ passou a ter má reputação entre os terapeutas mais ‘respeitáveis’ do mundo, e com razão. Nenhum deles pode curar e nenhum deles conhece a cura. Na pior das hipóteses, eles apenas fazem com que o corpo seja real em suas próprias mentes e, tendo feito isso, buscam uma mágica com a qual curar as enfermidades com as quais as suas mentes o dotaram. Como tal processo poderia curar? É ridículo do início ao fim. Contudo, tendo iniciado o processo, ele não pode deixar de terminar assim. É como se Deus fosse o diabo e precisasse ser encontrado no mal. Como poderia o amor estar presente? E como poderia uma doença curar? Não são ambas uma única pergunta?
Na melhor das hipóteses, e a expressão é talvez questionável aqui, os ‘curadores’ do mundo podem reconhecer a mente como a fonte da enfermidade. Mas o seu erro está em acreditar que ela pode curar a si mesma. Isso tem algum mérito num mundo em que “gradações de erros” é um conceito significativo. Contudo, as suas curas têm que continuar sendo temporárias, pois a morte não foi vencida até que o significado do amor seja compreendido. E quem pode compreender isso sem o Verbo de Deus, dado por Ele ao Espírito Santo como Sua dádiva a ti?
Qualquer tipo de enfermidade pode ser definido como o resultado de uma perspectiva que vê o ser como fraco, vulnerável, mau e em perigo, e assim em necessidade de defesa constante. No entanto, se o ser fosse assim realmente, defendê-lo seria impossível. Portanto, as defesas buscadas para isso não podem deixar de ser mágicas. Elas têm que vencer todos os limites percebido no ser e ao mesmo tempo fazer um auto-conceito novo, no qual o velho não pode reaparecer. Em uma palavra, o erro é aceito como real e se lida com isso através de ilusões. Como a verdade foi trazida às ilusões, a realidade agora passa a ser uma ameaça e é percebida como o mal. O amor passa a ser temido porque a realidade é amor. Assim o círculo se fecha contra as “trilhas internas” da salvação.
A enfermidade, portanto, é um equívoco e precisa ser corrigido. Como nós já enfatizamos, a correção não pode ser realizada quando se estabelece em primeiro lugar o ‘direito’ do equívoco para depois ignorá-lo. Se a enfermidade é real, ela não pode ser ignorada na verdade, pois não ver a realidade é insano. No entanto, esse é o propósito da mágica: fazer com que as ilusões sejam reais através de uma percepção falsa. Isso não pode curar, pois se opõe à verdade. Talvez uma ilusão de saúde a substitua por pouco tempo, mas nunca dura. O medo não pode ser escondido por ilusões, pois é parte delas. Ele escapará e tomará outra forma, sendo a fonte de todas as ilusões.
A doença é insanidade porque toda doença é doença mental, e nisso não há gradação. Uma das ilusões que nos faz perceber a doença como algo real é a crença segundo a qual as enfermidades variam de intensidade e o grau da ameaça difere segundo a forma que ela toma. Nisso está a base de todos os erros, pois todos eles não são nada mais do que tentativas de barganha por ver apenas um pouquinho do inferno. Isso é uma zombaria tão alheia a Deus que tem que ser para sempre inconcebível. Mas os insanos acreditam nisso porque são insanos.
Um homem louco defenderá as suas ilusões porque nisso vê a sua própria salvação. Assim, atacará aquele que tenta salvá-lo, acreditando que o está atacando. Esse círculo curioso de ataque-defesa é um dos problemas mais difíceis com os quais o terapeuta tem que lidar. De fato, essa é a sua tarefa central, o núcleo da psicoterapia. O terapeuta é visto como alguém que está atacando aquilo que o paciente tem de mais caro: o seu retrato de si mesmo. E como esse retrato veio a ser a segurança do paciente assim como ele a percebe, o terapeuta não pode deixar de ser visto como uma fonte de perigo real a ser atacada e até mesmo morta.
O psicoterapeuta, então, tem uma tremenda responsabilidade. Ele tem que parar o ataque sem atacar e, portanto, sem defender-se. É sua tarefa demonstrar que as defesas não são necessárias, e que a indefensividade é força. Esse tem que ser o seu ensinamento, se é que a sua lição vai ensinar que é seguro ter sanidade. O que não pode ser por demais enfatizado é que os insanos acreditam que a sanidade é ameaça. Esse é o corolário do ‘pecado original’: acredita-se que a culpa é real e inteiramente justificada. Portanto, é função do psicoterapeuta ensinar que a culpa, sendo irreal, não pode ser justificada. Mas também não pode oferecer segurança. E assim ela não pode deixar de continuar a ser tanto indesejável quanto irreal.
A doutrina única da salvação é a meta de toda terapia. Alivia a mente da carga insana da culpa que ela carrega com tanto cansaço e a cura se realiza. O corpo não é curado. Meramente se reconhece o que ele é. Visto corretamente, o seu propósito pode ser compreendido. Nesse caso, há necessidade de doença? Dada essa única mudança, tudo o mais se seguirá. Não há nenhuma necessidade de mudanças complicadas. Não há nenhuma necessidade de longas análises, discussões cansativas, e buscas. A verdade é simples, sendo uma só para todos.
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PSICOTERAPIA - Propósito, Processo e Prática